quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A dificuldade de não ser nada

 

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Os títulos de graduação às vezes parecem uma meleca super bonder que cola no seu nome e te faz escravo até o resto da vida.

Um dia você se matricula num cursinho e tem que escolher uma carreira para prestar vestibular. Normalmente você não conhece o dia a dia desta carreira e se apaixona por aquilo que o profissional faz, mas não sabe o que ele vive na prática.

E aí quando você decide abrir uma loja, tem gente que pergunta: Ué, mas você é XXX, porque está vendendo roupas? Gente, péra, eu não sou XXX. Eu sou a Livia, e sou livre.

Mas já que você quer motivos eu vou te dar um só: quando um cliente sai da loja com um produto na sacola (ou às vezes na mão porque os clientes são tão fofos que falam para não gastar as sacolas, deixa que eu levo na mão…), sai feliz e satisfeito com aquilo que ele comprou. E boa parte das vezes volta e compra mais. Já quando o cliente te contrata para o XXX, ele pede desconto e fala que absurdo gastar tudo isso (oi?) só com o projeto. Projeto, entenda-se para qualquer área, a inteligência, o plano, o pensamento. Não dá para pegar, mas exige muito conhecimento (aquele pelo qual a pessoa se apaixona quando faz inscrição para o vestibular), concentração, dedicação e um trabalho braçal, que não é pesado, mas é braçal, que serve para expressar a ideia para o cliente. E eu não estou só falando daquele cliente leigo, usuário final do que o seu projeto vai se transformar, serve também para a empresa multinacional que te contrata para usar a sua inteligência e o seu conhecimento e acha um absurdo pagar tanto assim (oi?). E já que o tanto assim não deve estar muito longe de onde a pessoa pode chegar vendendo roupas, quero mais é ver gente sair sorrindo da loja e voltar feliz, às vezes só para dar um “alô”, como eu já ouvi por aqui dessas pessoas sensacionais.

Ah então você é comerciante? Mas porque eu tenho que ser alguma coisa?

Eu não gosto de comer carne e, um dia ouvi um amigo discursando sobre se eu era vegetariana ou vegan ou sei lá o que, porque senão eu também não podia consumir leite e ovos e blá blá blá. Amigo querido, eu não sou nada, eu só gosto mais da vaca do que do bife e se isso tem nome eu não conheço e não me importo.

Eu gosto de ir à missa, nem por isso sou católica, gosto de andar de bicicleta e nem por isso sou ciclista e nem preciso me especializar e viver disso, eu só gosto e faço. E fico feliz porque existem pessoas que gostam da Livia, só por ser Livia, ou tem gente que se identifica com alguma coisa que eu faço, mas nem por isso me chama para o clube dos ciclistas. Mais feliz ainda porque tem gente que gosta da loja e gosta de vir dar um alô.

Ah, e a loja não é “de-roupa-de-criança”, é uma loja e se chama Allegro. Vem conhecer porque ela também não tem um título específico, é única.

E para terminar, eu perdi o meu diploma. Perdi mesmo, devo ter jogado fora na mudança com outros papéis que não serviam para nada. Agora não acho de jeito nenhum. Talvez ainda precise dele um dia, talvez eu volte a usar a meleca grudada no meu nome, mas faço questão de grudar com clips, para poder tirar e colocar quando quiser.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A timidez da filha

 

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imagem daqui

Eu poderia entrar no coro e dizer que está tudo corrido por aqui mas não adianta. Conforme for possível e valer a pena, eu apareço por aqui. Se não der, paciência.

Aliás, paciência. É o que eu tenho dito muito nos últimos tempos. Vou fazendo o que dá e o resto… paciência. Só é importante que as prioridades estejam bem estabelecidas e a gente possa dizer “paciência…” para as coisas certas.

Prioridade número 1 sempre foi a família e nos últimos meses nossos esforços foram concentrados para ajudar a filha a vencer uma timidez exagerada. É certo que eu não posso exigir que ela seja uma pessoa extrovertida, brincalhona, faladeira e cheia de amigos, já que eu mesma sou muito tímida. Mas para o bem dela, acredito que seja minha função ensiná-la a ser gentil com as pessoas, cumprimentando, agradecendo e respondendo quando alguém faz uma pergunta. Aliás, quando a pessoa não age assim, não dizemos que ela é “sem educação”? E educação não seria a função dos pais?

Função que se torna muito mais difícil com a quantidade de ruído externo. Quando você diz: “filha, responda, fulano perguntou seu nome!” e o fulano em questão fala: ”deixa, é criança….”

Sim, é criança, e se eu não ensinar agora, quando eu vou ensinar? Quando ela for um adulto arrogante que acha que o mundo deve girar ao seu redor e todas as pessoas vivem em sua função? Tarde demais, não é?

Claro que foi muito duro deixá-la sem ver seu canal de TV favorito e sem jogar no computador por tanto tempo. Mas ela mesma reconheceu que não estava legal assim e precisava mudar, mas faltava um estímulo….

Então, viva a Supernanny! Pegamos um calendário com espaços para anotações nos dias e fizemos um esquema de pontos. Ela mesma ajudou a montar, ela que definiu como contar os pontos:

- se ela deixasse de cumprimentar alguém ou responder uma pergunta, ganharia um X e 0 pontos.

- se ela olhasse, sorrisse e fizesse “tchau” com a mãozinha, ganharia uma florzinha, valendo 1 ponto.

- se ela respondesse oi, tchau e as perguntas, mesmo baixinho, ganharia um coração, valendo 2 pontos.

- se ela cumprimentasse e respondesse as perguntas, ganharia uma estrela, valendo 3 pontos.

- se ela falasse normalmente com as pessoas, ganharia uma bonequinha, valendo 5 pontos.

E os prêmios, também foi ela quem estabeleceu.

- quando completasse 10 pontos, um sorvete de máquina do vizinho de loja;

- 20 pontos: um sorvete do shopping;

- 30 pontos: um brilho labial que eu já tinha comprado mas que ela perdeu o direito de usar;

- 50 pontos: o direito de gastar o dinheiro da mesada.

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Ficamos mais de mês preenchendo o calendário, decidindo junto com ela qual deveria ser a pontuação do dia. Ás vezes ela ganhava alguns “X” seguidos e se esforçava para melhorar nos dias seguintes. Mas até completar os 50 pontos, ela não ganhou nenhuma bonequinha, ou seja, nunca falou direito com ninguém.

Então apareceu uma oportunidade mágica: meus pais, junto com os padrinhos dela, foram viajar num feriado para um sítio e convencemos ela a ir junto, sem os pais. Não precisou muito esforço para convencê-la, adorou a idéia. Eu fiquei com o coração partido, mas ela ia ter que falar.

Bom, na volta, ela tinha falado com a minha mãe e uma tia, só. Mas foi só o primeiro passo. Nas férias de julho, ela ficou 1 semana na casa da avó, na cidade vizinha, onde encontrou os primos, um daqui mesmo que estava por lá e outro de Curitiba, todos mais ou menos da mesma idade. E, de tanto brincar e se divertir, esqueceu da timidez. Falou com todo mundo e voltou transformada. Um pouco chorona (já sentiu depressão pós férias? então…), mas falando.

As pessoas até estranhavam: “Nossa, Elisa, agora você fala?” “É, eu fui para a casa da vó nas férias e voltei faladeira.”

E agora ela vai no parque e conversa com as crianças, responde, com gentileza, as perguntas dos clientes da loja (tipo, oi, como vc é bonita, como é seu nome? e outras coisas chatas que os adultos falam, quem aí já não foi criança?).

Não foi fácil e muitos desafios ainda estão por vir. E os ruídos externos sempre estarão aí para atrapalhar também, mas ela mesma está muito mais feliz, brincando com outras crianças e mais relaxada também, sem medo de alguém falar com ela. Por isso valeu o esforço e estamos prontos para outra. Quer dizer…. será que dá para tirar umas férias antes?

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