imagem do blog A Gente Transforma
Eu quis fazer faculdade de arquitetura porque sempre gostei de coisas coloridas, alegres e, de alguma forma, tinha que escolher alguma opção entre aquelas do “Guia do Estudante” que batesse com esta vontade. Fiz técnico em edificações e até achei legal trabalhar com desenho, tenho muita paciência e persistência com o trabalho, então levei a idéia adiante.
Não foi nada fácil. Arquitetura é um curso caro. Como eu já trabalhava e a “vida real” me faz mais feliz que ficar fechada numa escola, e os cursos de arquitetura nas faculdades públicas eram período integral, escolhi uma faculdade paga, menos cara que as outras e com uma boa reputação. Escolhi mesmo, só fiz vestibular para esta faculdade, passei, entrei e fiz. Mesmo escolhendo a mais barata e conseguindo bolsa parcial, o curso também é caro por causa dos materiais e trabalhos que precisávamos fazer…. nossa, como eu gastei dinheiro revelando fotos!!!! Tá, eu sei, isso não existe mais, mas antigamente (ai, será que faz tanto tempo assim?) tirávamos várias fotos para sair uma panorâmica, revelávamos todas, colávamos com fita crepe por trás e grudávamos no nosso desenho (que já era feito no computador, ah, não sou tão velha assim!). Como eu não tive “paitrocínio”, foi por minha conta mesmo.
Em paralelo, sempre participei de trabalhos voluntários, gostava de fazer algo mais. Só parei mesmo quando a filha nasceu, não dava mais, chegou a hora de me dedicar à minha própria família. Não que, um dia eu não vá voltar, faz muito bem para a alma, mas não adianta trabalhar com outras crianças e outras famílias se a nossa está precisando da nossa atenção agora.
Um dia, participei de um curso da Aliança pela Infância e tive que desenhar um crachá. No centro, deveria escrever meu nome (óbvio, senão não seria crachá), em um canto do crachá, desenhar a minha profissão. O título “arquiteta” acaba queimando um pouco o filme num curso desses, cheio de “educadoras”. Todo mundo fala: nossa, o que você está fazendo aqui? Nunca entendi muito bem qual o problema. Nunca entendi também porque o trabalho tem que aparecer nestas horas. Eu queria fazer um curso para trabalhar com crianças, não tem nada a ver com o meu trabalho, meu trabalho não sou eu. Mas, continuando com o crachá…. no outro canto, o que eu mais gostava de fazer. Desenhei as crianças, ou famílias, não lembro muito bem. No outro canto, meu sonho. Desenhei a família (ou as crianças) dentro de uma casinha e tinha que ficar explicando que queria que meu trabalho e o que eu gosto fossem uma coisa só.
Não que eu não gostasse do meu trabalho, mas eu queria unir o trabalho mais social com aquele no qual se ganha dinheiro e se paga as contas.
E o meio que eu trabalhava era muito diferente do trabalho social. Os gigantes esmagam as formiguinhas e um jogo político se forma para que todos possam fingir que não são formiguinhas e não serem esmagados pelos gigantes.
Me formei, casei, me tornei mãe, larguei o trabalho voluntário e fui procurar outras coisas que me fizessem feliz.
Mudei de cidade, de casa, comprei uma máquina de costura. Continuo trabalhando como arquiteta (ai, cada dia gosto menos deste nome) e criando algo novo que combine mais com a vida que estou vivendo agora.
Tempo passando, parei há tempos de acompanhar notícias de arquitetura. Acho que tem muito jornalista aí na blogosfera muito mais designer de interiores que alguns arquitetos que fazem apartamentos modelo decorados, todos iguais. Mas, criei uma certa simpatia pelo arquiteto Marcelo Rosembaum, super pop, Lar Doce Lar, coisa e tal…. um trabalho menos voltado para a elite e mais próximo do… social?!
E qual a minha surpresa! Olha o trabalho incrível que está rolando no Parque Santo Antonio, em São Paulo, cidade onde eu vivi minha vida passada (nesta mesma vida)! Esta reportagem passou hoje no Bom Dia São Paulo, mas dá para acompanhar tudo que está acontecendo no blog A Gente Transforma. Bom saber que tem mais gente aí pensando como eu e melhor, que teve oportunidade de botar a mão na massa.
Hoje minhas prioridades são outras, mas ficou muito feliz de ver iniciativas como esta. Feliz mesmo!